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sábado, março 26, 2005

Páscoa da minha infância!


É com grande honra que público no blog, mais um artigodo Sr. Albino Pinho, um fajoense de "gema".
Inicialmente este artigo era para sair no Correio de Azeméis desta semana, mas por motivos tecnicos tal não foi póssivel. Assim, o blog orgulha-se de ser o primeiro orgão de comunicação a faze-lo.
O artigo, como este senhor já nos habituou, é de excelente qualidade e mostra como a época da Páscoa era vivida em Fajões à uns tempos atrás.
Aqui fica o artigo na totalidade:

Naquele tempo tudo começava na véspera de domingo gordo. Munidos com o nosso espeto de ferro, como mandava a tradição, mais a saca a tiracolo, percorríamos algumas das casas de lavradores mais abastados, especialmente do lugar de Passos, pedindo um bocado de carne de porco, salgada ou defumada, que depois era enfiada no espeto de ferro. Para a saca eram sempre bem benvindos, um pedaço de brôa de milho, umas batatinhas, feijão ou hortaliças, ou outra coisa, pois cavalo dado não se olha o dente.

Os tempos eram de enormes carências, e só alguns lavradores mais abastados, e bondosos é que iam á salgadeira buscar um pouco de carne baixa de porco (toucinho), ou um bocado de unto para fazer a gordura do caldo de couves.

O recolhido ajudava sempre a completar o almoço de carne do domingo gordo, antes de entrarmos na purificação do espririto durante sete longas semanas, onde era pecado grave comer carne, especialmente á sexta-feira. O menu do domingo gordo era assim espécie de cozinho á Portuguesa, com mais gordura do que febra. Se carne já não fazia muito parte dos nossos hábitos alimentares devido á falta de meios para a obter, durante a quaresma que se aproximava então nem a vía-mos, era o jejum e abstinência quase total até á Páscoa.
Só os mais abastados que a tivessem, ou a podessem comprar, a poderiam comer, desde que pagassem as indulgências ao padre.

Mesmo em criança nunca compreendi muito bem isso das indulgências, e parece que não fui o único, pois Martim Lutero muito antes de mim também não compreendeu.

Findo o almoço de domingo gordo, a equipa do costume, irmãos primos, e amigos, juntavam-se no largo do coelho, ou do ti Adriano, para correr o carnaval, como dizia-mos. Vestidos a rigor, que normalmente para a época consistia no seguinte, calças dos mais adultos já esfarrapadas, amarradas á cinta com um cordel, ou uma velha cintura, um grande casaco, tudo já muito roto, mais um chapéu, também em muito mau estado. A careta, ou mascara, era confecionada por nós, normalmente feita de papelão, e pintada com um carvão, ficavamos assim tipo espantalhos.

Cada um dava largas á sua imaginação na sua forma de se mascarar, ás vezes iamos com roupas femininas, e vice versa, mas no geral não havia muitas diferenças devido á escassez de meios. Tudo isto só ficaria completo se estivessemos equipados com as bombinhas, serpentinas, brilhantes, e ainda mais importante, com o pó de arroz, para emoleirar as raparigas. A técnica consistia em abordar a "presa" de uma forma matreira, e com o pacote do pó de arroz já aberto num dos cantos pulverizar-lhe o cabelo o mais possível, o que nos valia ás vezes uma valentes bofetadas daquelas mais ariscas, pois uma rapariga emoleirada era espécie de uma derrota pessoal, o que muitas vezes lhe estraga a tarde obrigando-as a ir para casa a chorar com o cabelo como o do pai natal.

As bombinhas, e rastilhos, íamos acendendo, e lançando, conforme o local e circunstância. Como percorríamos vários lugares, em grande folia carnavalesca, o nosso instinto de rapazotes era também o de fazer alguma coisa de novo, algumas malandrices inofensivas próprias da idade. Recordo-me, entre muitas, de uma vez ao passar por uma casa térrea, tipo casebre, onde o único morador era uma solteirona já de meia, sempre de mau humôr, um do grupo ter uma ideia genial, como ela andava a varrer a cozinha, e tinha a porta da mesma virada para o caminho aberta, acende uma bombinha e lança para dentro da cozinha, o susto da pobre mulher foi tão grande, e inesperado, que saiu ao caminho com a vassoura em riste e como não nos pode apanhar ainda nos lançou a dita que voou uns bons metros atré cair no meio do grupo, tudo isto acompanhado com umas dezenas de pragas que se prolongaram até desaparecermos na curva mais próxima, a nossa sorte é que íamos todos mascarados, e não podemos ser identificados, senão tinhamos o Sr. Regedor, ou a G.N.R no outro dia em nossa casa.

Oa materiais de carnaval eram comprados com as nossas pequenas economias em qualquer das mercearias de Fajões, mas a loja do ti Belmiro "Carriça" em Casalmarinho era a que tinha melhor sortido, ainda me lembro que uma bomba de carnaval custava 2 tostões (20 centavos) e caixa de pós de arroz 15 tostões (1 esc. e 50 cent.), quem não tivesse dinheiro para a caixa de pó de arroz, com uma vazia enchia-a de cinza, ou farinha, era mais económico, só não tinha o mesmo perfume. Todas as folias carnavalescas, acabavam imperativamente o mais tardar á meia noite de terça-feira de carnaval.

A partir de quarta feira de cinzas a música era bem diferente, respeito absoluto, e sobretudo muito silêncio, mesmo o Cine S. Martinho que até aí tinha sempre dois potentes altifalantes nas escadas da sede da Junta para anunciar as sessões de cinema, durante todo o período da quaresma o Sr. Júlio remetia-os ao silêncio até á Páscoa. Assim como todo o tipo de bailes públicos. Uma casa afamada na região pelos seus grandes bailes de domingo á tarde era a loja do ti Marciano em Passos, não posso garantir mas penso que também nesse período o ti Marciano não os organizava.

Vinham as novenas da quaresma em que quase toda a aldeia participava, com grande fervor religioso a roçar o fundamentalismo. Cerimónias que tinham uma liturgia especial, por vezes acompanhada por famosos pregadores vindo de fora, alguns que tinham sido missionários em África, e que criavam nos fiéis uma emoção diferente. Findas as cerimónias as raparigas em grupos de regresso a suas casas, e a duas e três vozes cantavam lindas canções religiosas, e populares, que com a escuridão da noite se propagavam ao longe, dando ainda mais mistério, e respeito á quaresma.

Ainda me lembro também do encomendador das almas, normalmente era por promessa, e tinha de ser homem corajoso, e sobretudo muita fé. Durante toda a quaresma esse homem ia a uma determinada hora da noite á porta principal da igreja de Fajões, e com um varapau de marmeleiro dava umas pancadas na porta chamando as almas boas para o acompanharem. Bem agasalhado e com um lampião na mão, para iluminar o caminho, levava as ditas almas a vários locais ermos da freguesia, e ao cimo de alguns montes que faziam parte do roteiro do ritual, de onde proferia a plenos pulmões misteriosas ladaínhas.

Feito todo o percurso usual, o encomendador das almas levava-as outra vez á igreja, dando por terminada o ritual do dia, que era sempre identico até ao fim da quaresma. Contavam os anciões de Fajões que o encomendador depois de as entregar nunca devia olhar para trás, nem falar para ninguém até entrar em sua casa, pois diziam que também havia más almas no meio da boas, e que já tinham havido encomendadores que olharam para trás e ficaram tolhidos, vindo a morrer dias depois sem pronunciar uma única palavra do que viram.


Era eu ainda criança e ás vezes minha mãe pedia silêncio pois ouvia-se o encomendador das almas no alto do monte próximo, o que me causava um medo enorme ouvir aquela voz misteriosa ao longe na escuridão, muitas vezes em noites de rigorosa invernia.
Lembro-me de um ti João do lugar da Torre fazer essas práticas no início dos anos sessenta, e o último que tenho memória foi o ti Afonso "Valadares" em 1969.

Durante a quaresma, e normalmente no último fim de semana das novenas, havia as confissões da quaresma, era quase obrigatório toda a gente ir contar os seus pecadinhos, pecados ou pecadões ao confessor, o tamanho da penitência para a absolvição era conforme a quantidade, e gravidade dos mesmos. Para as ditas confissões vinham vários padres de fora, que durante todo o dia, e horas a fio iam confessando, e absolvendo os prevaricadores da lei, e fé católica.

Minha saudosa avozinha, muito religiosa, e superticiosa também, dizia repetidas vezes, pecado na quaresma vale por 7, e depois de confessado quem fizer uma asneira, ou rogar uma praga tem de ir falar com o padre Zé antes de tomar a hóstia de domingo, senão é pecado mortal. Ás vezes tinha dúvida se realmente o que tinha feito era mesmo pecado, então primeiro ia confessar o suposto pecado á minha avô que normalmente por vias das dúvidas me mandava ao padre Zé.

O domingo de ramos era outro momento de fervor religioso muito forte, ainda menino de catequese minha mãe preparava um ramo para cada um de nós, feito de alecrim e ramos de oliveira. A igreja estava toda decorada com panos roxos pelo Sr. Mário "Brega", barbeiro, armador, e decorador de igrejas, tratava ainda de funerais, pessoa muito respeitada em Fajões morava no adro. Finda as cerimónias do domingo de ramos, os mesmos eram benzidos, e com eles íamos participar na procissão em volta da igreja.

De regresso a casa os ramos benzidos eram muito bem guardados para acudir a alguma maleita, e em caso de necessidade fazer alguma mesinha, mas sobretudo deitar ao lume em caso de forte trovoada, acompanhada com uma ladaínha, em honra de St. Bárbara.

O domingo de ramos, da parte de tarde, era aproveitado pelos namorados para oferecerem um pequeno ramo um ao outro, para no domingo de Páscoa receberem as amendoas do seu amado(a). E ainda dos afilhados aos padrinhos, para receberam o folar na Páscoa.
Havia um diatado que dizia; lava os teus panos nos Ramos, que na paixão lavarás ou não!!!

Queria dizer que normalmente a semana santa que se seguia era um tempo humido e triste, que não possibilitava a lavagem e secagem dos panos da casa. Era nessa semana que normalmente as famílias mais pobres aproveitavam para fazer um reforma geral na casa com os meios que dispunha, mudar o colmo das enxergas, lavar o soalho com sabão amarelo, caiar os muros interiores, e ás vezes exteriores, e lavar toda a roupa da casa, sobretudo a das camas.

A semana santa era a que mais simbolismo tinha na quaresma, e as visitas á igreja, sobretudo á noite para rezar e velar, eram frequentes por parte da maioria dos fajoenses, pois havia orações e praticas especiais, como a missa do lava pés etc. Sexta-feira santa ás 15h em ponto, era quase obrigatório parar 3 minutos, onde nos encontrassemos. Essa prática prolongou-se por muitos anos, era já eu adulto, e na UIC onde trabalhava ás 15h em ponto era desligada a corrente electrica geral da fábrica durante os 3 minutos.

Recordo-me que segundo os regulamentos da santa igreja, defunto que fosse sepultado com o Senhor morto, isto é, entre as 15h da sexta-feira santa, e as 24h do sábado da aleluia, não tinha direito a acompanhamento religioso, nem a toque dos sinos, pois entendia-se que o senhor ainda estava morto. Se a memória não me atraiçoa recordo-me de uma caso concreto desses, de uma senhora de Passos que faleceu nesse período, e foi sepultada no sabado da aleluia de tarde. Ainda durante este período mesmo as radios só emitiam musica sacra.

Minha mãe que durante algum tempo andava a armazenar alguns ovos, das nossas poucas galinhas, em sítio secreto, para na semana santa fazer o sonhado pão de ló, a quantidade de broas dependia dos ovos que houvesse armazenado.

Era em casa de minha avô materna nos Salgueirinhos, qua algumas vezes era confecionado o famoso bolo de Páscoa. Minha avô, minha, mãe, minha tia, a comadre de minha avô, ti Maria "dos figos", reuniam-se, juntavam todos os ovos e numa grande escodela de madeira ali era preparado e confecionado o esperado bolo, enquanto o forno a lenha ia ficando au point. A divisão do produto final era, com o é evidente conforme a matéria prima que cada uma tinha trazido. Eram momentos muito bonitos para nós crianças que participava-mos na preparação de tudo como podíamos, ou ajudando a puxar o cordel do batedor manual de ovos feito em madeira, ora indo buscar água á fonte da mina no monte, ou ainda buscar lenha á loja de minha querida avô.

Finamente chegava o sábado da aleluia, e o pressentimento que tinhamos era de grande alívio, como o de ter saído de um longo percurso num túnel escuro
A carga emocional da quaresma começa a desanuviar-se, mas também havia um sensação bizarra de falsa santidade, a dúvida de saber se tinha-mos feito o nosso melhor dentro desse longo túnel de purificação espiritual.

A Páscoa chegava!!! finalmente a passagem do inverno para a primavera!!! já com os cheiros da mesma a se sentirem no ar, brevemente começavamos a ouvir os cucos e as poupas, aves migratórias anunciadoras de tempos mais alegres.

Há aromas incunfundivéies de Páscoa por todo o lado, a fenos, lírios, japoneiras (camélias) primaveras, que se misturam com os dos doces, e ainda á cal das paredes recentemente caiadas. O padre Zé, o juíz da cruz, o resto da equipa, com o rapaz da campaínha á frente a anunciar a chegado do compasso. Começam a grande maratona, a de levar o Senhor ressuscitado, a toda a aldeia em dois dias, tarefa árdua, e fatigante, mas feita com muito gosto e amor.

No domingo ao fim da tarde, toda a família, ia beijar o Senhor a casa da minha avô, aos Salgueirinhos, depois de tudo arrumado, e de ter saboreado um pouco do pão de ló de nossa avozinha, feito em formas diferentes, normalmente em pequenos tachos, descíamos com ela até á nossa casa nas Môutas, pois era das poucas vezes que ela dormia em nossa casa, trazia algumas flores do seu pequeno jardim, e uma linda toalha de linho, para adornar a nossa mesa de Páscoa. Minha avozinha era também minha madrinha de baptismo, e na Páscoa dava-me sempre uma humilde prenda, ou folar.

Segunda-feira de manhã a azáfama era enorme, para que tudo estivesse pronto á hora precisa. Já se ouvia a campaínha no largo do ti Adriano, a adrenalina sobe consideralmente.

Toda a numerosa família está em volta da minúscula sala, quase nem respiravamos, quando sentíamos o rapaz da campaínha subir as nossas escadas de granítos mais esfregados que nunca, e cobertas de fenos, e outras ervas e flores aromáticas

Depois de dar o Senhor a beijar, havia ainda tempo para dois dedos de conversa, tirar ou meter amendôas na mesa, conforme a situação. O homem da saca ocupava-se de levantar o dinheiro que normalmente estava espetado numa laranja, ou simplesmente num pequeno prato.

O campasso seguia para o fundo do lugar, enquanto davamos largas á nossa alegria de crianças, minha mãe começava a cortar o pão de ló, que era saboreado como um apreciador aprecia o bom vinho. De repente ouvem-se o estralejar de foguetes no fundo do lugar, é o meu tio Belmiro, muito vaidoso, gosta sempre de ser diferente, dizem os presentes!!!

Da parte de tarde, com os bolsos bem cheios de amendoas, e a irreverência da idade, corría-mos ao encontro do compasso para os lados do Candal, que acompanhamos nas suas últimas visitas apressadas.

Nota-se já uma fatiga evidente em toda a equipa, mas nunca falta o sorriso, e boa disposição, a visita pascal se termina já com o crespúsculo nos caseiros da fábrica das tripas.

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