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quarta-feira, maio 25, 2005

Pobre Antuã !!!

Aqui fica mais um excelente artigo, assinado pelo Sr. Albino Pinho. Desta vez o tema de "conversa" é o estado do rio Antuã.

"O dia estava cinzento, com ligeira neblina sobre as várzeas, própria da época, com uma chuva dita "murrinha" como diz o povo, mais convidativo ao aconchego do lar, do que propriamente ir fazer uma foto-reportagem ao Antuã.
Equipo-me a rigor, calço as botas de água, e com a minha fiel companheira Olympus, desço até à ponte para Silvares, limite das freguesias de Fajões e Carregosa, e aí sempre nas suas margens parto a montante do Antuã, até ao lugar dito Cova do Lobo, onde aquele rio recebe o do Salgueiros. Mesmo num só a partir daqui, o Antuã continua a ser pequeno. Vou tomando notas e fazendo várias fotos, posteriormente tratadas e editadas no meu PC.
Revi locais da minha infância, onde nos banhávamos em dias de canícula, onde as mulheres do lugar lavavam as roupas mais volumosas, fazendo enormes estendedouros na verdura das suas margens. Nós subíamos aos choupos e salgueiros, para daí, muitas vezes, darmos um bom mergulho nas águas mais profundas do açude, ou simplesmente subir ao ponto mais alto da árvore. Ou, no Outono, quando subíamos às mesmas arvores à procura de uvas tardias, mas mais saborosas ainda. Os dias em que à mão apanhávamos barbos, trutas, escalos e outras espécies de peixe nos buracos do rio. Onde se podia beber nas águas do rio quase em segurança.
O que vi desta vez, infelizmente, nada tem a ver com esses tempos remotos. O cenário não difere muito do que escrevi neste semanário sobre o mesmo assunto em 28 de Setembro 2000. Aliás, a situação agravou-se, (no trajecto que percorri) há um desrespeito e alheamento enorme por quem de direito pelo estado do rio. No seu leito encontra-se um pouco de tudo, fruto de uma sociedade de consumo com poucas regras. De um povo, em que poucos sabem o significado da palavra cidadania e meio ambiente. De um povo egoísta, que só pensa no seu bem-estar pessoal, que só se preocupa com o que se passa dentro das suas portas para dentro, e nem sempre. Não seria melhor para o meio ambiente e mais económico para os contribuintes ter um guarda-rios, devidamente formado, a tempo inteiro, para zelar pelo dito, podendo mesmo passar coimas aos prevaricadores? Ou será melhor deixar tudo ao Deus dará!!!
Além do estado do leito do rio e das levadas me ter chocado, há ainda muitos campos de cultivo que o circundam, outrora fonte de riqueza, que as águas do Antuã regavam, hoje em total abandono, fruto das politicas da PAC, do perfil dos campos, e da preguiça de muitos. Será que somos assim tão ricos para nos darmos ao luxo de não utilizar esses espaços, por exemplo, para outro tipo de cultivos? Terras que os nossos antepassados à força de braço arrotearam, erguendo cômoros, deslocando terras a braço, e que hoje com a invasão da vegetação selvagem estão a dar abrigo a algumas espécies de animais selvagens, começando pouco a pouco a destoar a fisionomia do vale do Antuã, outrora verdejante e bem tratado. De alguns caminhos agrícolas que estão completamente irreconhecíveis, há um que me chocou enormemente, o das Serrazinas. Durante muitos anos galguei-o a pé, pelo menos duas vezes ao dia, para me deslocar para o meu trabalho, em todas as estações do ano. Só quando o inverno fazia subir o seu leito perigosamente, é que íamos à volta pelo Cruzeiro. Muitas vezes, devido ao avançar da hora, devo ter batido records de velocidade pelas Serrazinas abaixo até à ponte das Várzeas. E de inverno ainda noite, juntavam-se em frente a nossa casa os que vinham do lugar de Passos, e em pequenos grupos com bocados de pneus de bicicleta acesos, lá fazia-mos a travessia das várzeas até à casa do ferrador, à entrada da Gândara. Hoje tudo está intransitável, mesmo a pé.
Já ouvi pessoas queixarem-se que as hortaliças, e flores estavam muito caras, mas mesmo gratuitamente ninguém quer amanhar um bocado de terra, para ter o prazer de colher algo do seu próprio trabalho. Não há a mínima dúvida, somos um povo com boca de rico e bolsa de pobre. Quem sabe se um dia esses espaços agrícolas não irão ser aproveitados ao máximo como outrora, pois, apesar de tudo, é da terra que vem o essencial à vida humana.
E por que não fazer, como um pouco por toda a Europa, e aqui na Suiça também, espaços com hortas, ou jardins hortícolas, entre 50 a 100 m2 devidamente arranjados, com as suas casinhas de madeira, muitas com a respectiva bandeira, onde se misturam as várias classes sociais, comigo incluído, em sã convivência nos tempos livres, e sadia competência para ver quem produz os melhores legumes, isto contra o pagamento simbólico de uma renda anual ao proprietário do terreno, que muitas vezes é a própria autarquia?
Há muita gente que não tem um palmo de terreno e esta solução sempre ajudaria na economia da casa, em tempos tão dificéis!
Nós que temos uma coisa que muitos países na Europa invejam, as horas de sol anuais, podendo criar durante os 12 meses vários tipos de legumes, enquanto aqui nem metade do tempo dispomos! A propósito das pequenas hortas num estudo que fizeram das mesmas na zona de Paris, os reformados nos seus tempos livres, e de uma forma quase desportiva, produzem uma boa fatia de legumes de boa qualidade que se consomem na grande metrópole, tendo inclusivé associações de hortelões com estatutos. É vê-los beber o seu copo de tinto na sua barraquinha do jardim com o seu amigo do lado, discutindo porque é que a sua salada não cresceu tanto como a do outro. Pergunto a mim mesmo de que vale haver uma associação ambientalista na terra, se não é persistente junto das autoridades, para ao menos limpar o rio e dar vida ao mesmo. E fácil colocar placas de proibição em alguns locais do rio com o respectivo decreto-lei, quando o maior prevaricador é o próprio Estado. É ver as saídas das águas que vêm da escola EB 2, 3 de Fajões no sitío denominado Cova do Lobo.
No dia que fiz esta reportagem, as águas do Antuã nesse local eram cor de borra de vinho e durante um extenso percurso a jusante o forte cheiro a lixivados era insuportável, e peixes só mesmo para os lados da Senhora da Ribeira, poucos e mal alimentados.Que bom seria um dia termos o rio limpo. Já algum trabalho muito positivo foi feito pelos amigos do Antuã do Pisão até ao lugar do Cruzeiro, com o patrocínio da Junta, mas se esse trabalho não tiver continuação, desde a sensibilização da população, em que cada um seja guarda do seu rio, de nada valerá.
O ideal, seria, além de o limpar regularmente, criar açudes para regular as suas águas durante todo o ano, dando-lhe outra beleza e vida, colocando as espécies de peixe mais adequadas ao meio. Criar áreas de lazer nas sua margens, e futuramente com a Via de Nordeste a passar perto, seria uma aposta ganha."

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