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sexta-feira, junho 24, 2005

Aonde a aventura pode levar !

Numa altura em que os incêndios dão cada vez mais que falar, pelas piores razões, e numa altura em que os Bombeiros Voluntários de Fajões têm cerca de 3 chamadas de incêndio por dia (a maior parte delas, é na serra da costeira!) aqui fica mais uma aventura do nosso amigo Albino, do tempo em que ele era bombeiro.

"Aonde a aventura pode levar !



Na sequencia das histórias por mim vividas, aquando bombeiro de Fajões, (1978 1985) e da qual guardo gratas recordações, passo a narrar mais uma de muitas outras.

Estávamos no ano de 1981, ano talvez recordista de chamadas para incêndios na região, se a memória não me atraiçoa, tivemos 200 e tal serviços só para incêndios, nesse longínquo ano.
Setembro era o mês, que ia mais ou menos a meio, não havia dia ou noite que não fossemos chamados para acudir a mais um incêndio, na sua grande maioria, como habitualmente, no concelho de Arouca.

Nesse dito dia, mais ou menos ao meio da tarde toca o telefone, o nosso quarteleiro, na altura o falecido Sr. Gomes (retornado) atende, ordens da sede para nos dirigir imediatamente, e em maior número possível para o quartel dos voluntários de Arouca (ainda em antigas instalações provisórias, pior que as nossas)

O Sr. Gomes faz o gesto tantas vezes repetido, levanta o manípulo, e a sirene dá o alarme longas e repetidas vezes. Á medida que o bombeiral vai chegando, uns a pé, outros de bicicleta, outros de motorizada, e poucos de carro. Das poucas viaturas que tínhamos, quase todas da sede, ia-mos acamando como podíamos, e de sirene ligada, lá nos metemos ao caminho direcção terras de St. Mafalda, embora o som da sirene desse a impressão que íamos a uma altíssima velocidade, a verdade, é que nem as viaturas, nem as estradas o permitiam
...mas enfim !
Passada uma boa meia hora, lá chegamos mais uma vez á casa dos nosso colegas de Arouca, cujo comando deu ordens para nos reagrupar no outro lado da estrada nos terrenos da serração, pois estava para chegar o helicóptero de Viseu que andava a transportar os bombeiros para o local do incêndio serras de que circundam a aldeia de Cabreiros.

Equipados cada qual com o seu batedor, (pau, ou vara, con algumas lonas fixadas da extremidade com que batíamos nas pequenas labaredas até á sua extinção ) muito precioso, e prático para este tipo de incêndio.

Depois de devidamente instalados dentro do engenho, este levantou voo e, qual libelinha, em poucos minutos já estávamos no local do incêndio, transporte mais que eficaz para a colocação do pessoal no local exacto, as viaturas algumas já no terreno, outras a caminho seriam também muito importantes.
Ficamos precisamente no cume de uma serra de onde podíamos avistar do outro lado do rio a aldeia de Cabreiros, e nas serras vizinhas focos de incêndios aqui e ali, pois parece que tinham sido provocado por uma queimada muito usual na região, para fazes renascer o pasto nas serras para o gado, uma das poucas fontes de subsistência destas gentes serranas.

O que é certo é que esses focos já ardiam há alguns dias, e começavam a aproximar-se do povoado, As chamas eram reactivamente baixas, e o
material de combustão era essencialmente carqueja, muito abundante na região, na parte superior da algumas serras havia algum arvoredo, composto essencialmente por pinheiros de baixa estatura.

Lançando um olhar ao meu redor, e no horizonte, vejo alguns bombeiros, principalmente de Arouca, dispersos do outro lado do rio. As ordens que tínhamos era de aguardar por ordens ordens superiores que iriam chegar de um momento a outro, devíamos manter-nos agrupados no local de desembarque.
Mas quem espera desespera ! queríamos mostrar que os de Fajões eram os maiores, afinal éramos tão novos, e com tanta vontade de mostrar trabalho. Eu como mais velho, não em idade, mas porque tinha ficado em primeiro lugar na 1° escola dos bombeiros de Fajões, até a chegada de um superior era minha a responsabilidade do pessoal.
Vendo que do nosso lado o fogo ardia baixo e calmamente a meia encosta tive o ideia que julguei fantástica, reuni o pessoal, mais dois ou 3 aspirantes de Arouca que andavam por ali, e disse ! pessoal não tem cabimento estarmos aqui a olhar uns para os outros enquanto que o fogo aqui do nosso lado vai avançando ! portanto preparem os batedores (o único utensílio que tínhamos na altura) e vamos descer em
fila indiana até ao local do fogo, aí vamo-nos meter de frente e em pouco tempo creio que dominaremos este lado.

Dito e feito, fomos descendo a serra bastante íngreme, entre a vegetação e muitas pedras e depois de percorrer algumas centenas de metros estamos face ao "inimigo" á voz de comando começamos a malhar no dito que quase tivemos extinto pouco tempo depois do início do combate.

Apagava-mos aqui! ele acendia ali ! Começa a levantar a brisa da tarde que desvia as chamas mais para baixo, onde a carqueja já nos cobria, por uma questão de orgulho os bombeiros não desistem, eu que dei a ordem começo a duvidar se realmente o vamos parar, a dúvida instala-se mas continuo a encorajar os meus homens. Entretanto avisto um Canadair, e pensei milagre!!! ele vai resolver a situação, faço-lhe sinal o piloto baixa para o local do sinistro, abre o tanque mas infelizmente acerta mais nos bombeiros que no fogo.
O vento aumenta de velocidade, já temos dificuldades de aproximar-mos com os batedores, o calor é enorme! O fogo entra no matagal da altas carquejas, o que eu temia aconteceu, estávamos numa espécie de cova com o fogo ali à nossa frente, quem conhece sabe o que é um fogo em carqueja ou eucaliptos, em poucos minutos tudo se complicou, de repente dou ordens para abandonarem o local o mais rápido possível, tínhamos perdido o controle da situação, estávamos em local muito perigoso, não havia um segundo a perder.
Foi o pânico geral, já não conseguíamos nos ver uns aos outros, quem pode ainda trouxe o seu batedor, outros largaram tudo, e cai aqui levanta ali, serra fora foi um ver se te avias!

Chegados ao cume da serra, reparo que faltam dois homens, o meu grande amigo Armando, que hoje vive na Austrália, e um aspirante de Arouca que andava com ele. Olho serra abaixo o cenário é dantesco e apocalíptico, a serra do nosso lado está quase toda em chamas. Estamos todos panicados, e desesperados pelos dois colegas que faltam, vamos chamando e olhando, resposta nada ! o tempo passa o fogo avança na nossa direcção, começo a desesperar e a ideia que os dois ficaram nas chamas começam a nos invadir, há alguns que começam a chorar, eu tento manter o mínimo de moral no pessoal, afinal se alguma tragédia aconteceu sou eu o responsável !
Tenho de assumir, que vai ser de mim, mas no fundo continuo alguma coisa que diz que eles estão vivos em algum lado, mas onde se lá em baixo já está tudo queimado, e se não saímos daqui rápido podemos correr perigo. Lá longe, do outro lado do rio, na aldeia de Cabreiros, há viaturas que chegam de muitas corporações, até mesmo militares de Aveiro, pois o fogo começa a ameaçar a aldeia, e certeza que há que montar uma frente de combate, porque se o vento mantém esta direcção esta noite a aldeia vai arder.
A noite começa a cair, as esperanças cada vez são menores, dou ordens para nos deslocarmos pelo cima da serra até a Cabreiros, e contar o sucedido, há que assumir, por entre choros de desespero lá fizemos o percurso, talvez o mais penível que fiz até hoje.
Mas !!! Ainda a umas centenas de metros da aldeia alguém nos reconhece e grita AINDA AGORA ! Onde é que vocês se meteram anda toda a gente à vossa procura! era o meu amigo Armando, eu não queria acreditar ! chorei de alegria de tristeza não posso explicar. Afinal o Armando quando viu as coisas complicadas atirou-se ao rio com o aspirante, esperou que o fogo passa-se subiu a serra do outro lado até à aldeia de Cabreiros onde nos esperava impacientemente. Tentamos abafar esta história o mais possível, ficou quase só entre nós. Passados 24 anos, e por homenagem, e respeito aos soldados da
paz, especialmente de Fajões, de todos que vi os melhores, resolvi meter esta fascinante história no blog.

Para terminar, mais uma das muitas histórias que guardo sobre os nosso bombeiros, direi que esse incêndio foi dos mais diabólicos que conheci, nessa madrugada uma das frentes chegou a ameaçar perigosamente a linda aldeia de Cabreiros, era ver centenas de homens, com os autotanques carregados de água à espera dele à entrada da aldeia, sobre o comando do comandante Alegria, tudo estava pronto para o grande combate, só que a certa altura o vento mudou de direcção e levou-o a passar algumas centenas de metros ao lado da aldeia, que com uma força impressionante tudo queimou, até os pequenos pinheiros bem lá no cimo da serra.
O inimigo tinha passado ao lado, mas não tinha desarmado. o comandante, manda poupara munições "água" mas devemos estar de vigia á aldeia toda a noite. Assim se fez, entretanto a fome aperta, a hora vai alta, eu e a minha equipa, agora ao completo, como o rancho tardava a chegar, fomos procurar uma taberna na aldeia. Encontramos uma que nos serviu como reis, lembro-me ainda perfeitamente do cenário, toda em madeira, muito tipica com os pipos alí á frente, as travessas de barro com os rojões, as chouriças, e mais derivados da aldeia. Posso afiançar-vos que foi dos momentos mais felizes da minha vida. Ainda continuamos lá até o outro dia á noite, e quando o comande deu ordens de regressar a casa, pois a aldeia estava a salvo, o fogo esse ainda continuou por uns dias por aquelas serras até que a natureza o extinguiu.
Das zonas que mais aprecio em Portugal, é essa parte do concelho de Arouca, e parte do de S. Pedro do Sul, e rara é a vez que não passo lá nas minhas férias de Agosto, rever muitos locais onde combati incêndios, e sobretudo admirar um tesouro escondido que felizmente os abutres do turismos ainda não descobriram."

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