Toda a informação relacionada com a freguesia de Fajões; AGENDA: 29/01 - S. Roque - Fajões (15.00 horas)// TODOS OS COMENTÁRIOS SÃO DE TOTAL RESPONSABILIDADE DOS SEUS AUTORES

sábado, setembro 10, 2005

Memórias da nossa terra - 3 - Lenda das Bodas do Cemitério


Lenda das Bodas do Cemitério


(lendas e narrativas da nossa terra)

Era uma vez um lavrador rico, dos mais nobres de Fajões, senão o mais nobre, com terras que se estendiam, num vale fértil, banhadas por um rio, o Antuã, pequeno no caudal, é certo, mas de margens graciosas e elegante no percurso até ás águas do Vouga.

Chamava-se Afonso Nunes Xavier, além de outros cargos, também era presidente da Junta da Paróquia, famoso nas redondezas pelo seu caracter, de perfil aguerrido, daquele tipo olho por olho, dente por dente.
Enviuvara, há bem pouco, de D. Gertrudes, aparecida morta subitamente, tão nova ainda e tão bela.
Ninguém conheceu a dimensão do desgosto nem ninguém lhe vira as lágrimas de dor, pois, por alguns dias, permaneceu encerrado na sua grande casa no lugar do Côto , sem conviver com amigos ou parentes. Parecia, todavia, misterioso, a muitos, o triste desaparecimento da dama, coincidindo com o afastamento de uma das suas criadas, Dulce, a quem Afonso Nunes Xavier dirigia, muita vez, ora um galanteio, ora um sorriso cúmplice.
Por isso, nas casas abastadas das redondezas, se murmurava, aliás sem existência de provas, que o marido se vingara na esposa, com veneno ou punhal, por ela haver descoberto o seu amor adúltero e o haver interrompido com a expulsão de Dulce. Passado o tempo de luto, Afonso Nunes Xavier regressou aos seus afazeres, e à suas interiores funções de presidente da paróquia. Vinha ele de Cesar num entardecer doce, a caminho de casa pelos lados do Barbeito, quando olhando para os lados do cemitério onde jazia D. Gertrudes, avistou um vulto de mulher, cuja riqueza do trajo mostrava ser alguém de elevada estirpe. Desviando o trajecto, ficou a contemplar a encantadora senhora que trazia o rosto pudicamente oculto por um véu de tecido leve, Afonso Nunes Xavier encantado com aquela aparição, não resistiu em rogar-lhe que se mostrasse aos seus olhos, despojada de ocultações. Ela obedeceu. E Afonso Nunes Xavier pôde, então, admirar melhor essa mulher, muito jovem e muito formosa. Solícito, indagou-lhe se necessitava de auxílio; de companhia até casa, pois a noite avançava e cresciam os perigos de uma dama, como ela, se aventurar, sozinha, por esses ermos. E, enquanto dizia tais palavras, cada vez mais se sentia dominado pela sedução daquela mulher. Num ímpeto apaixonado, tentou mesmo tocá-la, mas parecia que as suas mãos unicamente prendiam o sopro do vento. Tomou-lhe a mão, mas sentiu-lha de gelo e como desprovida de carne. Dir-se-ia haver palpado, apenas, os ossos de um esqueleto! Todavia, não deixou de lhe confessar um amor eterno, pois pensava que lhe era impossível, a partir do instante em que avistara aquela dama, continuar a viver de coração tranquilo e solitário. A visão sorriu enigmaticamente. Depois, exigiu de Afonso Nunes Xavier que jurasse a eternidade desse amor, no recinto sagrado do cemitério. E ambos se dirigiram para lá. Mas, quando Afonso Nunes Xavier transpôs o portão da mansão dos mortos, o sino da igreja começou a tanger, cadenciado. Espantou-se o rico lavrador com aquela dobre, pois havia proibido ao sacristão após o falecimento de D. Gertrudes de fazer tocar o sino da igreja durante algum tempo. Então, ao som das badaladas, Afonso Nunes Xavier viu-se envolvido pelos da estranha dama e, mudo de assombro, ouviu-se a confissão: Ela era o cadáver de D. Gertrudes, traída e assassinada pelo marido, a vingar-se, naquele encontro, do seu sofrimento e da sua morte violenta. E, á medida que fazia esta revelação, sem deixar de abraçar o seu marido, ia-se transformando, lenta, lentamente, num esqueleto apavorante. Um grito imenso, arrepiante, soltou-se da boca escancarada de Afonso Nunes Xavier. A Lua já nascera no céu, pálida e misteriosa. Na manhã seguinte, o coveiro foi descobrir o "pobre" lavrador, morto e tombado sobre o sepulcro da esposa. Então, o povo de Fajões, e das redondezas, lamentando-lhe a morte, arrependiam-se de haver duvidado da fidelidade de Afonso Nunes Xavier, afinal, tão apaixonado por D. Gertrudes. E nunca chegaram a conhecer a verdade.

Autor: Albino Pinho

0 Comentários:

Enviar um comentário

Links to this post:

Criar uma hiperligação

<< Home