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domingo, fevereiro 19, 2006

O último filme - Autor: Albino Pinho

Foi com grande emoção que ao folhear o CA deparei, no espaço da necrologia, do passamento do Sr. Júlio Gomes da Rocha.
Quem foi o ti Júlio, como vulgarmente lhe chamávamos? Foi um amante da sua terra. Foi um homem que marcou várias gerações, entre as quais a minha através dos filmes que projectava no extinto cine S. Martinho em Fajões.
Segundo testemunhos da época, começou a projectar filmes no início dos anos 50, de início com um sócio, por debaixo da antiga escola do Cruzeiro, em piso de terra batida. Passado pouco tempo com a inauguração da sede da Banda Musical de S. Martinho de Fajões, a 07 de Setembro de 1952, fez um contrato de arrendamento para exploração do salão de festas da dita sede, que com uns pequenos trabalhos de adaptação ficou na época funcional para as ditas sessões da sétima arte. Essa exploração prolongou-se até bem perto dos anos 80, altura que as salas de cinema entraram em declínio e levou ao fecho da maioria.
Serralheiro mecânico de profissão durante décadas no explendor ainda da Oliva, em S. João da Madeira, era um apaixonado pelo cinema, um verdadeiro cinéfilo. Como nem só os bens materiais é que contam, o Ti Júlio trouxe a Fajões e freguesias vizinhas um pouco de cultura, numa altura em que a vida era bem diferente, os meios de diversão quase inexistentes.
Lembro-me pefeitamente quando, com um irmão mais velho, fui a primeira vez assistir a uma sessão de cinema, no longínquo ano de 1960. Como nunca tinha visto televisão até então, pois na altura em Fajões devia haver uma ou duas, depois de entrar na sala com os meus 6 anitos, mal a luz se apagou e as primeiras imagens se projectaram no ecrã, eu desatei a gritar na sala, o que obrigou o Ti Julio a vir com a sua lanterna ver o que se passava. Ninguém me conseguiu convencer, perdi os 5 tostões do bilhete de entrada, pois fui direitinho para casa, com o susto de ver aquelas personagens gigantes cavalgarem em direcção ao local onde me encontrava sentado, com um tamanho e alarido que me puseram em estado de choque. Belas recordações, do Ti Aníbal, o homem da bilheteira, com o falecido Cardoso a porteiro. Já a década de 60 estava quase a acabar e a entrada custava 25 tostões. Não era muito ! Só que, para nós, era demasiado. Quantas vezes negociámos o preço, com o Ti Júlio, com aquele sorriso rasgado, a dizer: "Pronto, entras no primeiro intervalo pelos 10 tostões". Depois de já instalados havia sempre um amigo ao lado que nos contava a parte do filme que tínhamos falhado. Havia mesmo aquelas sessões, em que estávamos com as finanças completamente a seco e, ao intervalo, aproveitávamos a confusão na reentrada dos espectadores que tinham ido ao café S. Martinho para entrarmos de "enxurrada", ou debaixo de uma sobretudo, ou gabardine de algum adulto conhecido. Lembro-me de uma vez entrar debaixo do avental da tia Lúcia. Quando isso acontecia, íamos por norma sentar na primeira fila em frente ao ecrã.
Quantas vezes, quando os filmes eram de melhor qualidade e a procura era superior aos lugares disponiveis na sala (umas duas centenas, creio) o Ti Júlio, mais os seus adjuntos iam pedir ao Amadeu, do café S. Martinho, algumas cadeiras suplementares para colocar no corredor da sala. Isto acontecia mais pelas festas de fim de ano e Páscoa, quando os filmes normalemnte eram sobre temas bíblicos.
As condições da sala eram quase inexistentes, bancos compridos de madeira, as filas de trás eram mais caras e normalmente ocupadas por alguns casais de namorados que aproveitavam o facto de toda a gente estar a olhar para a frente, e a seguir cegamente o enredo da película para algumas liberdades que na altura, feitas à luz do dia eram consideradas ousadas... Quase tudo era permitido, mesmo fumar. Quantas vezes o saudoso ti Júlio, e mais tarde o seu filho António, tinham de vir com a lanterna detectar o prevaricador barulhento e tentar metê-lo na ordem, que muitas vezes passava pela expulsão pura e simplesda sala.
Como a licença de exploração era a de ambulante, só podia exibir filmes do outono aos fins da primavera.
No período que não havia cinema, havia um vazio enorme em nós. Ansiávamos ver os primeiros cartazes a anunciar a primeira sessão de cinema, nas bombas do Angenor, na feira dos 18, ou no café S. Martinho, para começarmos a dar a nossa opinião e crítica que, em princiípio, era feita conforme as fotos dos cartazes, fossem ou não de pancadaria. Durante esse período de defeso muitas vezes íamos em grupos a pé a S. João da Madeira ao cine Avenida (Chico) já há muito demolido, a quem, posteriormente, o Ti Júlio comprou algum equipamento, cadeiras, e máquina de projectar.
Os nossos filmes favoritos eram todos aqueles que metessem arraiais de pancadaria, westerns, se possível com muitos índios, filmes do Zorro, de romanos, do Bucha e Estica do Charlin Chaplin etc etc.
Foi o Ti Júlio também em tempos bem tristes que com a sua aparelhagem sonora animava as festas e alguns bailaricos sobretudo da minha terra.
Foi o Ti Júlio que num tempo de "escuridão" trazia um pouco da cultura cinematografica a todos nós, não só através dos filmes, mas dos comentários que eram exibidos antes destes, que nos permitiam ver outros mundos. Tudo tem o seu tempo. Tudo é efémero, mesmo a própria vida. Tudo se vai. mesmo hoje num mundo de maior conforto. Restam-nos sempre as recordações da infância, em tempos dificeis.
Um grande obrigado ao Ti Júlio por ter preenchido a minha (e de muitos) infância e adolescência com aqueles filmes cheios de sonhos e fantasias, no fundo, muito inocentes, pois a censura na época não brincava em serviço. Quantas vezes não tentávamos imitar os heróis de alguns filmes! Quantas vezes não sonhávamos ser como eles! Por tudo isso, e mais uma vez, obrigado amigo, e até sempre!

2 Comentários:

At 19/2/06 1:46 da tarde, Anonymous albino pinho said...

Este artigo foi publicado no último número do Correio de Azeméis

O Autor

 
At 28/2/06 5:03 da manhã, Anonymous NUNO COSTA said...

SIM SIM FICO CONTENTE DE O S. JULIO O PAI DO TAL BICOS TER TRAZIDO NA ALTURA DA ESCORIDAO PARA TODOS UM POUCO DE LUZ , E PELO QUE ESTA ESCRITO NESTE DOCOMENTARIO QUE MUITO BOM E MUITO BEM FEZ AS CRIANCAS E ADULTOS DESSA ALTURA????.

ENTAO ESSAS MESMAS CRIANCAS A JUNTA DE FREGUESIA , O CENTRO SOCIAL E TODOS FAJOENSES TEM QUE DIZER CHEGA BASTA , BASTA , TEMOS QUE AJUDAR O S. JULIO NA ALTURA QUE MAIS PRESICA DE NOS DE SERTA MANEIRA COMPENSAR O BEM QUE FEZ A TODOS FAJOENSES.

PELO QUE SEI E PELO O QUE SE VE AQUELA FAMILIA ( AQUELA CASA ) ESTA NUMA MISERIA ESTREMA QUE PRESICA DE MUITA AJUDA E PRINCIPALMENTE O S. JULIO QUE TANTO DE BEM FEZ AOS FAJOENSES TRAZENDO UM POUCO DE CULTURA NA ALTURA QUE TANTO JEITO E ALEGRIA DEU/

 

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