Toda a informação relacionada com a freguesia de Fajões; AGENDA: 29/01 - S. Roque - Fajões (15.00 horas)// TODOS OS COMENTÁRIOS SÃO DE TOTAL RESPONSABILIDADE DOS SEUS AUTORES

sábado, março 25, 2006

50 anos do rancho Folclórico - III - Das Ceifeiras ao Rancho de Fajões - Autor: Paulo Samuel

Soube há dias, por pessoa amiga- e encontro agora o destaque neste blogue fajoense - das próximas comemorações festivas do cinquentenário do Rancho "As Ceifeiras de S. Martinho de Fajões". Na hipótese de não poder estar presente nos actos públicos dessa efeméride, resta-me a possibilidade de utilizar esta janela sobre o mundo, criada pelo Sousa (parabéns pelos 20.000 visitantes) que projecta a Vila de Fajões para um universo global de informação e comunicação, como tributo pessoal de homenagem ao nosso Rancho Folclórico.

Para muitos, sejam demasiado adultos ou timidamente novos, a persistência na comunidade local de um rancho folclórico, em pleno século XXI, é por vezes assumida com algum desinteresse, quando não desdém, como manifestação popular de laivos saudosistas à qual se entregam aqueles que, por tal meio, encontram uma forma de aparente afirmação social. É certo que esta ideia tem vindo a mudar, sobretudo desde que se percebeu a importância sócio-cultural que os ranchos acabam por colher nas comunidades locais ou emigrantes, servindo de elo de ligação daqueles que continuam a querer uma forte ligação às raízes, que outra coisa não é senão o sentido da própria identidade. Todavia, quer no meu tempo (recuando aos anos 70, numa ainda freguesia de Fajões que se queria cosmopolita e, sobretudo, desembaraçada da sombra que a primazia industrial da vizinha Cesar sempre teimara em fazer sentir) quer noutras décadas volvidas, manteve-se essa dificuldade em acentuar o estatuto de um rancho folclórico (em contrapartida, as bandas filarmónicas detinham, tanto na elite social como entre o povo, a marca de prestígio que, felizmente, nunca perderam), cujos méritos passavam, sobremaneira, pelos ensaiadores, pelos músicos e, não menos, por quantos contribuíam para sustentar um agrupamento que, talvez, conseguia melhor figura fora de portas do que dentro, onde muitos conterrâneos desconheciam até o repertório que os ilustrava. No entanto, não esmoreceu o ânimo e, ao longo dos anos, o Rancho Folclórico "As Ceifeiras de S. Martinho de Fajões" prosseguiu nos seus intuitos, granjeando o respeito e a admiração de terras e gentes, incluindo a nossa.

Pessoalmente, foram poucas as circunstâncias que me permitiram acompanhar esse percurso já histórico de cinquenta anos. Lembro-me, sobretudo, das actuações em Fajões e numa ou noutra localidade próxima. Recordo-me ainda - e sem qualquer desprimor para outras cantadeiras passadas ou presentes, mas a memória nem sempre regista tudo o que gostaríamos - da Senhora Angélica como voz emblemática do Rancho, e de alguns músicos e dançarinos que já não encontro nas fotografias do presente. A propósito, foi numa dessas actuações que tive a oportunidade de ver e ouvir o maior estudioso das danças portuguesas, Pedro Homem de Mello (também grande poeta que mais tarde reencontrei em círculos literários e acerca de quem já escrevi na revista O Tripeiro), convidado a deslocar-se a Fajões pelo bairrismo de meu tio, Samuel Bastos Oliveira (outra figura a que ainda não se prestou o tributo devido pelas causas em que se empenhou por amor à terra, o que nunca nenhuma quezília ou politiquice recente poderá fazer esquecer ou apagar da história local e das páginas dos jornais), actuação em que participaram, creio, outros grupos do folclore português. Para mim, então adolescente, ficaram-me na retina e nos sentidos - e ainda me sensibiliza hoje - o ritmo dos volteios, as cores dos trajes, a lembrança do sentido dos motes e das cantigas, evocando cenas rurais ou quadras amorosas, numa toada que se prolongava ainda nas horas derradeiras de término de festa. (De propósito e para evitar lapsos nas referências não refiro especificamente as danças que então faziam moda, mas que certamente continuam a fazer parte do programa artístico da actual formação.)

Umas linhas ainda, com certeza subjectivas para muitos mas quiçá pertinentes para outros, em torno do vocativo laboral. É importante conhecermos a matriz que nos está subjacente, tanto no alicerce familiar e no percurso educativo e social do indivíduo como no que diz respeito às referências geográficas e culturais onde se contextualiza a vida afectiva e os traços psicológicos de cada um de nós. Na confluência desse real concreto, em que importa ter os sentidos despertos e a total abertura para o espanto que é o mundo, é que emerge, a bem dizer, o ideal de vida que há-de sobrepor-se como paradigma a todo o sentido de existência. Nessa forja, tal como o ferreiro que tantas vezes espreitei perto de casa e onde, por vezes, arriscava manusear o fole, é que se há-de moldar a golpes de persistência e de fogo anímico o destino de quem entenda a vida como paradoxo, uma aventura de que não se conhece o caminho ou a segurança mas só a dádiva do sonho e do crer. Importa volver ao rego. Ceifeiras, portanto. Quadro de referências simbólicas a lembrar o que foram os campos de Fajões, desbravados nesse extenso vale atravessado pelo rio Antuã, numa distância tão grande como a que vai do Pisão até à Senhora da Ribeira. Espaço rural por excelência, com tudo o que isso implica de tradições e práticas ancestrais, campesinas e comunitárias. Hoje, apenas lembrança, nunca passível de ser transmitida a filhos ou a vindouros apenas pela palavra, pois quem - se não a viveu - poderá ter a sensação de uma desfolhada a céu aberto, sentindo o cheiro ao folhedo e ao milho aberto, ou a sensação nas mãos da terra húmida e lavrada, o divino recender do pão acabado de cozer no forno a lenha, o travo quente do leite tirado do canado poucos minutos após se ter mungido a vaca, ou a sensação no palato de uns rojões tirados da lata do pingue e postos na sertã, junto ao lume, como fazia minha avô Severina quando eu, criança, voltava da escola do Areal? Foi uma realidade que só por evocação pessoal (a fotografia, a haver, apenas documenta, não capta o essencial) pode ser reavivada, isto é, revivida. Por isso, dizer Ceifeiras de S. Martinho de Fajões é potencializar um tempo e um espaço primordial, aquele em que são abolidas as agruras e a dureza de um quotidiano nem sempre farto ou amoroso, a favor das reminiscências do que se viu belo e se entendeu único. Mas isto é ainda campo ou leiva para outras sementes textuais?

Por enquanto, que fique somente o tributo de homenagem ao Rancho "As Ceifeiras de S. Martinho de Fajões" pela persistência na divulgação da terra, na celebração das alegrias e vocações para a dança, na afirmação dos valores e das competências das gentes passadas e presentes que numa terra nem sempre acarinhada pelos poderes públicos sempre tiveram o brio de manter colectividades como o Rancho e a Banda de Música, entre outras. Por também contribuírem, a seu modo e nas suas roupagens, alfaias e instrumentos musicais para continuarmos a manter os sinais de identidade etnográfica que urge preservar, enfim, por certamente terem o condão de fazer recordar, a todos quantos apreciam as suas actuações, esses tempos que a voragem do presente, na mediatização do efémero, teima em fazer desvanecer. Para todos os elementos do Rancho e seus simpatizantes, a solidariedade amiga e memorialista do vosso conterrâneo.

0 Comentários:

Enviar um comentário

Links to this post:

Criar uma hiperligação

<< Home