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sexta-feira, março 03, 2006

Vertentes da Memória - Autor: Paulo Samuel

É com agrado que publico aqui um artigo feito por um leitor do blog. O autor do texto, vive actualmente no Porto desde os anos 80, mas passou toda a sua infância em Fajões. Desde já peço desculpa pelo atraso na publicação do trabalho.

Vertentes da Memória

Não sei se a necrologia - essa rubrica outrora tão frequente nos jornais diários mas hoje em declínio, certamente porque vivemos numa sociedade que se quer distante do mundo dos mortos, exorcizando uma dimensão que não deve estar rente a um quotidiano presumido eterno - é essa tampa de sepulcro que oculta, para todo o sempre, a imagem e a memória de um ser outrora vivo e, quantas vezes, próximo, pertencente ao círculo dos nossos familiares ou amigos. Por mim, julgo que esse modo de informação comunitária ainda enraizado no interior do país (entenda-se, num raio de pouco mais de 50 quilómetros das grandes cidades), seja nas páginas dos jornais regionais seja à porta das mercearias ou nos Cafés, é muitas vezes, na sua terrível objectividade, o meio mais imediato para nos darmos conta de que, afinal, a vida continua a ser um hiato entre o nada que precede o nascimento e o desconhecido que se sucede à morte. Daí, talvez, a presciência da sabedoria popular que preferia antigamente dizer de alguém que tinha passado, a ter falecido, com isto significando a crença ou a fé de que, do outro lado da cerceada existência, está um domínio ou mundo outro que dá sentido à vida, pois nenhuma tese científica vai mais além do que propor, num eterno retorno, a passagem do cadáver ao húmus natural onde tudo se cria e tudo se transforma.
Vem este parágrafo inicial a propósito de uma dessas infaustas nótulas, publicada numa das últimas edições de A Voz de Azeméis, que permite, na verdade, recuperar da terra fria (que não essa das paragens do Barroso, descrita por Ferreira de Castro) a memória de um homem a quem se tributa aqui singela homenagem, perpetuando-lhe numa lembrança uma réstia de imortalidade, emoldurada num rosto que pessoalmente e porventura para outros permanece vivo. Refiro-me ao Senhor Júlio Gomes da Rocha, de Fajões, mais popularmente conhecido pelo Senhor Júlio "do cinema".
Decerto bastaria frisar esta relação para desde logo despertar nos eventuais leitores a lembrança de outros tempos, bons ou maus conforme o fado, mas sempre avivados com alguma alegre nostalgia quando se recua até essa época das fitas. Estou certo de que cada um terá as suas experiências pessoais, decerto até marcantes se não empolgantes de pouco mais de uma hora passada numa sala às escuras, qualquer que fosse a Casa de cinema, ora preso às maravilhas de um ecrã iluminado a preto ou já a tecnicolor, ora embebido num monólogo ou diálogo surdo com a namorada que aceitara o risco da matiné cinéfila. É certo que nem sempre os míticos drops chamados "noivos", embrulhados num auspicioso papel brilhante e dourado, contribuíam para gestos mais ousados, mas isso era outra estória... No entanto, não é este registo que aqui se quer trazer!
Fiquemo-nos por um cenário mais rural, porém muito autêntico e real, que hoje considero quase como um paradoxo por situá-lo tão-só em finais dos anos 60! Há terras que querem num instante ser progressistas, ou modernas, sem atender ao quanto essa radical mudança tantas vezes importa na perda de uma identidade própria, do espaço físico e da geografia humana, causa por vezes de uma futura brecha na estrutura psicológica, individual e colectiva, habituada a ter e a ler sinais de mundividência, reconhecendo espaços e hábitos, coesa na tessitura de uma estrutura social e até familiar que tantas vezes é atropelada pela voragem desse almejado progresso. Daí, ser quase de estranhar que, naqueles idos de 60, ainda se pudesse dar de caras com um senhor Regedor que calcorreava a aldeia a pé, um Abade de sotaina, desses tradicionais em tudo lembrando um personagem de Camilo, um ferreiro de bigorna, vários merceeiros de lojas que eram também casa de pasto e de vinhos, um alfaiate de alinhavo em cortes por medida, um mestre da música, muitos sapateiros de sovela à porta das modestas casas, um exigente professor que usava da régua feita por carpinteiro artista, muitos lavradores para quem a terra e os animais constituíam o sagrado círculo de uma existência às mãos de Deus e, entre tantos e tantos outros, de labores tradicionais, o senhor Júlio do Cinema.
Sei que as primeiras sessões em Fajões antecedem a minha própria infância. No mais longínquo dessas recordações, ocorre-me ver ainda o povo da freguesia descer pelo sinuoso caminho da Torre (rua, só alguns anos depois) ladeando o moinho velho onde murmurava uma límpida água do rio Antuã, o qual desembocava na estrada principal, junto ao Cruzeiro onde se situava a "Casa da Música", que albergava o cinema, para ver "O Amor de Perdição", de Leitão de Barros. Filme, como talvez se lembrem, a preto e branco, inspirado no dramático romance de Camilo (que o escreveu na Cadeia da Relação), que a proximidade das cadeiras de pau numa plateia desconfortável e exígua fazia com que os espectadores se tornassem quase figurantes da cena. Foi uma fase de cinema português, áureo uns anos antes, durante a qual também se exibiu a "Rosa do Adro", cujas cantigas não eram estranhas àquelas mulheres que enfrentavam ainda um certo pudor quando as luzes se acendiam para o intervalo. Nessa época, marcaram também a memória colectiva o "Marcelino, Pão e Vinho", os diversas Cantinflas e os incontornáveis Bucha e Estica.
No entanto, no meu tempo (e antes das posteriores escapadelas, ao sábado, para o Imperador ou para o Cinema de Arrifana) o que despertava maior alvoroço nas hostes juvenis eram os filmes dos cowboys, do John Wayne e do Ringo e do Django, muitas vezes ofuscados, é certo, por outros heróis de capa e espada (D`Artagnan ou Robin dos Bosques) e até de uns outros ainda mais estranhos, como era o caso insolente Trinitá, com o seu amigo Bud Spencer! Para os apaixonados, sempre havia um Gianni Morandi e um ou outro filme francês (mais Delon e Belmondo do que Jean Gabin). Quanta imaginação e fantasia não se levava para os sonhos dessa noite. Dias antes, ficara já no ar a ansiedade da sessão, através dos cartazes (fotografias em medida larga, coladas sobre um cartão de fraca qualidade) que anunciavam, em Cafés e na moldura da bilheteira, os filmes do fim-de-semana. No domingo, de tarde, chegava então aquela furgoneta azul-bebé, nossa bem conhecida, donde saíam as bobines, em caixas de alumínio singelamente etiquetadas, que sabíamos traziam dentro o poder mágico do encantamento. Ainda se respirava, pelo Outono que então chegava (e época das projecções), aquela atmosfera dos campos já despidos de milheirais e vinhedos, de centeios e de frutas, em que a luz rasante do sol, nos campos e leiras em socalco, emprestava aos limites da freguesia um alor de terra pacata com gente rural, não obstante o fluxo de operários que já então se deslocava para a vizinha e industrial freguesia de Cesar. O cinema dava-nos tudo isso, e muito mais, como o desejo de correr mundo, de encontrar numa esquina do tempo esta ou aquela personagem a que coláramos também um pouco da nossa personalidade. Era o nosso Cinema Paraíso. Eu, por vezes, também ficava com o Senhor Júlio, ou com o seu filho, outro Júlio, a vê-los desmontar as bobines da máquina, ou a emendar a fita que partira, ou queimara, com o delíquio dos químicos, mas cuja responsabilidade, sempre punida com vaia de assobios, se atribuía indiscutivelmente a quem estava dentro da cabina de projecção.
Os anos e as mudanças varreram, entretanto, as marcas desse quotidiano. Apurando um derradeiro olhar, marcado também ele pelo cansaço míope, apenas distingo agora o Senhor Júlio, naquele seu ar sóbrio, só reservado quando o tema não tratava de cinema ou de actores, dando à manivela para o arranque de um filme que, reparo, é o da sua própria vida. Quanto devemos, os que ficam, pelo encanto e pela imaginação, pelos bons tempos de adolescência e pela familiaridade com tantos "artistas", ao Senhor Júlio do Cinema?

Paguemos-lhe ao menos, já não o bilhete colorido, mas apenas o preço de uma lágrima de saudade!

1 Comentários:

At 3/3/06 7:13 da tarde, Anonymous Albino Pinho - Suiça said...

Começo por enviar um forte abraço ao meu amigo Paulo. Belos tempos aqueles que passamos juntos, nas ditas segadas, onde como ele próprio diz tudo, era mais puro, mais genuino, e mais inocente. Este é um momento alto deste Blog com a aparição de um talentoso fajoense. É uma delicia ler quem sabe escrever, e esta homenagem que fizes-te ao Sr. Julio foi sublime, tens enorme talento amigo Paulo, espero ver-te por cá muitas vezes para todos partilharmos os teus escritos e culturalmente Fajões ficar mais rico.
O desafio está lançado. Agora que apareces-te exigimos que fiques. E em agosto se Deus quiser conta comigo como o prometido.

 

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